Em uma mesma semana, a vida me presenteou com uma enxurrada de reflexões sobre a finitude. A partida repentina de uma pessoa idosa cheia de vida e planos na comunidade em que frequento e um simples final de semana com a minha sogra, perto dos 80 anos, trouxe à tona a beleza do tempo que passa, com suas marcas e suas memórias e, ao mesmo tempo, fez lembrar que a existência, por mais longa que seja, é efêmera e frágil.
Esses contrastes, coincidentemente (ou não) também observei retratados nas páginas de dois livros cuja leitura findei também por esses dias. Eles exploravam a dor da ausência, mas também a indescritível beleza de se estar vivo. Um jogo de luz e sombra que me leva à pergunta: por que nós, brasileiros, temos tanto receio de envelhecer? Por que a velhice, que deveria ser sinônimo de sabedoria e experiência, muitas vezes é vista como um fardo, uma fase que deve ser escondida? Por que a juventude, inexperiente e imatura, por vezes também impulsiva e imprudente, é um bem cultuado, quase uma religião?
As rugas viram inimigas, os cabelos brancos uma afronta, uma fraqueza (especialmente nas mulheres, mas isso é matéria pra um outro artigo!) e um sinal que precisa ser combatido. A obsessão pela "eterna juventude" nos faz correr de uma das fases mais ricas da vida, como se ela fosse uma derrota e não uma vitória.
Em outras partes do mundo, no entanto, a história é diferente. No Oriente a veneração aos ancestrais e o respeito aos mais velhos são a base de muitas sociedades. Os idosos são a memória viva das famílias, os detentores de um conhecimento que não está em livros. Sua experiência é um tesouro, e não um peso. Esse é um valor, porém, acredito eu, que deve transcender a cultura oriental, e é um lembrete do que estamos perdendo.
Importantes pensadores já se debruçaram sobre esse tema. Simone de Beauvoir, por exemplo, em "A Velhice" (1970), questionou o estigma associado a essa fase da vida, explorando sua história e defendendo mudanças para a garantia de respeito, liberdade e autonomia. O psicanalista Erik Erikson, em seus estudos sobre o desenvolvimento humano, afirmou que na velhice, a pessoa enfrenta a necessidade de fazer um balanço da vida e de confrontar a própria mortalidade.
O desafio de todos nós, portanto, na medida em que o tempo pesa, é buscar a sabedoria e a aceitação, refletindo sobre nossas experiências com orgulho, no lugar de nos entregarmos ao desespero pela finitude. A necessidade de apoio aos que envelhecem não está, deste modo, somente focada na questão física.
A nossa cultura, porém, insiste em valorizar o que é novo e rápido, em vez de honrar a experiência e a calma que o tempo traz. Refletir sobre isso, em casa, me fez perceber que estamos desprezando uma riqueza que não se compra: o conhecimento de quem já viveu. Minha filha, em contato com os avós, pode ver de perto (e faço questão que veja) que o envelhecer é, sim, uma dádiva.
A idade não precisa ser um peso. Ela pode e deve ser uma celebração da jornada, até porque se você não envelhece, morre! Literalmente. É hora, portanto, de desfrutar com calma e de viver a vida com a sabedoria que só os anos e a experiência podem trazer.
Que possamos aprender a ver as rugas no espelho com orgulho, como um mapa que conta a história de uma vida. E que possamos olhar para os que vieram antes de nós sem dó ou indiferença, mas com o respeito que eles merecem.
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