Percorrer as estradas do Nordeste nos últimos meses tem sido um exercício de descoberta que vai muito além do cumprimento de uma agenda profissional. Se o trabalho (e o lazer) já me trouxeram a estas terras muitas vezes, a estrada me deu o privilégio de desbravar cenários e lugares mais do que especiais. E, nesta época do ano, há uma energia indomável que toma conta do asfalto, das vilas e das grandes cidades: a atmosfera do São João.
Nascer e viver no Sul do país meu deu uma perspectiva moldada por outras paisagens e costumes, onde o mês de junho evoca o início do inverno e o recolhimento. Quando muito, vamos num Arraiá ali, outro acolá, geralmente com o intuito de desfrutar da dupla imbatível nesta época do ano: pinhão (bem salgado, por favor!) e quentão (de preferência com bastante gengibre e canela), pra esquentar o corpo no frio.
Cruzar as fronteiras desse Brasil de dimensões continentais e vivenciar o período junino no Nordeste, porém, é um choque cultural maravilhoso. Aqui, junho dita o ritmo da existência. As cidades já se vestem de bandeirolas coloridas, o cheiro de milho assado toma as esquinas e o dia 24 de junho assume o status de um dos feriados mais sagrados do calendário afetivo local. O São João não é apenas uma festa; é a afirmação de uma identidade que resiste e se renova.
Essa imersão me faz refletir sobre a própria imensidão do nosso país e a importância central do Nordeste na construção de quem somos. É impossível compreender o Brasil sem reverenciar a força, a criatividade e a riqueza que emanam dessa região. Embora minhas raízes estejam fincadas no Sul, o coração ganha um tamanho novo a cada quilômetro rodado. Percebo que, quanto mais eu vivo, viajo e testemunho a pluralidade deste país, mais profundamente brasileira me sinto — e um orgulho genuíno, desses que arrepiam a pele, transborda ao ver de perto a nossa gente.
Viajar por aqui é também render-se aos encantos do Sertão Nordestino, uma terra de força poética inexplicável, e à imponência do Rio São Francisco, um velho conhecido que desenha a vida por onde passa. Ariano Suassuna já defendia com unhas e dentes a soberania dessas tradições. A arte e a festa popular eram, para ele, as maiores defesas de um povo. Concordo. O São João é a prova viva dessa resistência festiva, onde a linha da tradição costura o passado e o presente.
Ver de perto como cada pedaço do território — a praça enfeitada da pequena comunidade, a margem do rio que ganha novas cores, o pórtico de entrada de cada município — se transforma para receber as festividades é compreender a "engenharia da alegria" do povo nordestino.
Deixar-se contagiar pelo espírito junino enquanto a estrada nos move é compreender que o Brasil profundo se revela no xote que toca no rádio, no orgulho de quem decora a própria rua e na certeza de que a fogueira sempre será acesa para iluminar a noite. O Nordeste me parece uma espécie de pátria espiritual. Quem a adentra, nunca mais se liberta. Aracaju, 25 de maio de 2026, 20h49.
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